segunda-feira, 25 de abril de 2016

Conheça a aldeia no Senegal em que vivem praticamente só mulheres?

Mulheres buscam água em poço em Kiral, no Senegal, outra região atingida pela seca

Visitei a aldeia de Ndiamaguene, no extremo noroeste do Senegal. Se tivesse que dar direções, diria que é a última parada depois da última parada, é a aldeia depois que a estrada pavimentada termina, depois que a de cascalho termina, depois que a trilha no deserto termina. Então vire à esquerda passando o último baobá.
Mas a viagem vale a pena, se estiver à procura das nascentes da enxurrada imigratória fluindo da África para a Europa via Líbia. Ela começa aqui.
Ela começa com um fio de água de imigrantes de milhares de pequenas cidades e aldeias por todo o Oeste da África como Ndiamaguene, a uma distância de cinco horas de carro da capital, Dacar. Eu visitei em companhia de uma equipe que está trabalhando no documentário "Years of Living Dangerously" (Anos vivendo perigosamente, em tradução livre), sobre a ligação entre a mudança climática e a migração humana, que será exibido no último trimestre deste ano no canal "National Geographic". No dia em que chegamos, 14 de abril, a temperatura era de 45ºC, muito acima da média histórica para o dia, um nível insano de clima extremo.

Mas há uma anormalidade ainda maior em Ndiamaguene, uma aldeia agrícola de casas de tijolos de barro e cabanas de teto de sapé. O chefe da aldeia reuniu virtualmente todos de sua comunidade para nos receber, e eles formaram um círculo receptivo de mulheres em estampas coloridas e meninos e meninas com sorrisos calorosos, que voltavam da escola para o almoço. Mas no instante em que você se senta com eles, você percebe que há algo errado nesse quadro.
Praticamente não há quase nenhum homem jovem ou de meia-idade nesta aldeia de 300 habitantes. Eles partiram.
Todos pegaram a estrada. As terras cultiváveis da aldeia, agredidas pelo clima, não conseguem mais sustentá-los, e com tantas crianças (42% da população do Senegal têm menos de 14 anos), há bocas demais para alimentar com uma produção cada vez menor. Assim, os homens se espalharam pelos quatro ventos à procura de qualquer trabalho que lhes pague o suficiente para sobreviver e enviar algum dinheiro para suas mulheres ou pais.

Essa tendência está se repetindo por todo o Oeste da África, que é o motivo para todo mês milhares de homens tentarem emigrar para a Europa por barco, ônibus, avião ou a pé. Enquanto isso, os refugiados que fogem das guerras na Síria, Iraque e Afeganistão estão fazendo o mesmo. Juntos, esses dois fluxos representam um imenso desafio para o futuro da Europa.
Diga a esses homens jovens africanos que suas chances de chegar à Europa são minúsculas e eles lhe dirão, como um me disse, que quando você não tem dinheiro suficiente para comprar até mesmo uma aspirina para sua mãe doente, você não calcula as chances. Você simplesmente vai.
"Somos principalmente agricultores e dependemos da agricultura, mas agora não está funcionando", me explicou em uolof o chefe da aldeia, Ndiougua Ndiaye, por meio de um tradutor. Após uma série intermitente de secas nos anos 70 e 80, o clima se estabilizou um pouco, "até cerca de 10 anos atrás", acrescentou o chefe. Então o clima realmente enlouqueceu.

O período de chuvas costumava começar em junho e prosseguir até outubro. Agora, as primeiras chuvas podem não começar até agosto, depois param por algum tempo, deixando os campos secos, e depois recomeçam. Mas voltam em forma de tempestades torrenciais que provocam inundações. "Assim, independente do que você plante, as plantações são estragadas", disse o chefe. "Você não tem lucros."
O chefe, que disse ter 70 anos, mas não sabia ao certo, só conseguia se lembrar de uma coisa com certeza: quando era pequeno, ele podia caminhar para fora dos campos a qualquer momento durante a estação de plantio "e seus pés afundavam" na terra úmida. "O solo era escorregadio e oleoso, e grudava em suas pernas e pés, e você tinha que esfregar para tirá-lo." Agora, ele disse, pegando um punhado de areia quente, o solo "é como pó, não está mais vivo".
Eu perguntei se ele já ouviu falar de algo chamado "mudança climática"? "Ouvimos a respeito no rádio, e estamos vendo com nossos próprios olhos", ele respondeu. A temperatura está diferente. Os ventos estão diferentes. Estão quentes quando deveriam estar frios.

As impressões do chefe não estão erradas. A agência nacional de meteorologia do Senegal diz que de 1950 a 2015, a temperatura média do país subiu 2ºC muito mais rápido do que o previsto, e desde 1950 a média anual de chuvas diminuiu em cerca de 50 milímetros. Logo, os homens de Ndiamaguene não têm escolha a não ser migrar para cidades maiores ou para fora do país.
Alguns poucos afortunados conseguem chegar à Espanha ou Alemanha, via Líbia. A Líbia era como a rolha da África. Mas quando os Estados Unidos e a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar do Ocidente) derrubaram o ditador líbio, mas sem colocar tropas em solo para ajudar a assegurar uma nova ordem, eles basicamente retiraram a rolha da África, criando um imenso funil da caótica Líbia para a costa do Mediterrâneo.

Os menos afortunados encontram trabalho em Dacar, ou na Líbia, Argélia ou Mauritânia, e os ainda menos afortunados ficam encalhados em algum ponto ao longo do caminho, pegos no crepúsculo humilhante de ter partido sem ganhar nada e sem ter nada para retornar. Isso cria mais e mais alvos tentadores de recrutamento por grupos jihadistas como o Boko Haram, que pode oferecer algumas poucas centenas de dólares por mês.
O chefe me apresentou a Mayoro Ndiaeye, o pai de um jovem que partiu à procura de trabalho. "Meu filho partiu para a Líbia há um ano e desde então não temos notícias, nenhum telefonema, nada", ele explicou. "Ele partiu com a mulher e dois filhos. Ele era um telhadista. Depois que ganhou algum dinheiro (em uma cidade próxima), ele foi para a Mauritânia, depois para Níger e então para a Líbia. Mas não mais tivemos notícias dele desde então."

O pai começou a chorar. Essas pessoas vivem próximas demais da beira do precipício. Um motivo para terem tantos filhos é que estes são a rede de segurança para os pais idosos. Mas todos os meninos estão partindo e a beira do precipício está cada vez mais próxima.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
THOMAS L. FRIEDMAN

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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