quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Partido do governo do Distrito Federal está cada vez menor

Jovens do DF vêm buscando uma renovação na política, práticas partidárias mais

democráticas e querem um sistema com mais representatividade.
Com 22 desfiliações previstas para está sexta-feira (03), o PSB possui seu pior quantitativo de militantes da história. O partido, que iniciou o governo com cerca de 6 mil militantes, caiu para 2 mil agora em 2017, no ano-véspera das eleições.
Thaynara Melo, que era a representante da Juventude Nacional do partido no DF, está entre os desfiliados de hoje. Segundo ela, algumas medidas do governo contribuíram com a decisão. "O aumento das passagens no transporte público, aumento do valor do restaurante comunitário e a redução significativa das estruturas governamentais de direitos humanos. Hoje precisamos de representantes e partidos que lutem por todas as classes, que deixe o conservadorismo e o centralismo de poder de lado", declarou. Além dela, outra representante chave da juventude do partido também está de saída, a Beatriz Moraes, dirigente do DCE da UnB.

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Essas desfiliações impactarão na formação de base do partido, que segue impopular. O perfil de quem está saindo hoje é o da juventude feminina, um quadro de difícil mobilização para qualquer partido. Os 22 desfiliados possuem menos de 30 anos e 20 deles são mulheres. Como afirmou Thaynara na sua carta de desfiliação, essa juventude está em busca de algum "terreno que ainda exista esperança e que o comodismo não domine".
Veja em anexo a carta de desfiliação na íntegra.
 THAYNARA MELO·SEXTA, 3 DE NOVEMBRO DE 2017
  Em 2012 me filiei ao Partido Socialista Brasileiro (PSB). Um partido cheio de esperança e que, mesmo com as contradições típicas do nosso sistema político, possuía grandes figuras de referência como Glauber Braga (Dep. RJ), Luiza Erundina (Dep. SP), Eduardo Campos (Gov. PE), Lídice da Mata (Sen. BA), João Capiberibe (Sen. AP) e Janete Capiberibe (Dep. AP). As reflexões teóricas, que pareceram à frente do seu tempo, me fizeram acreditar que o partido passaria por uma transição e se adaptaria a novas práticas trazidas por nossa geração.
Construí meu caminho entrelaçando o debate de gênero e juventude. Participei da Juventude Socialista Brasileira (JSB) no Distrito Federal nos meus primeiros três anos de partido e ajudei a construir o "DF em Debate" que visava consolidar o programa de governo do Rodrigo Rollemberg. Em seguida, me tornei Secretária Geral da Juventude Nacional do PSB, uma das coordenadoras nacionais da Campanha Presidencial de Eduardo Campos e Diretora da União Nacional dos Estudantes.
Em 2015, ao perceber a intensificação das práticas misóginas e a tentativa constante de invisibilizar os quadros femininos, organizei, ao lado de companheiras de vários estados do Brasil, a JSB Feminista. Mostramos que as mulheres no PSB não seriam mais laranjas eleitorais ou as esposas dos mandatários. Mostramos que as infinitas secretarias gerais não representam o potencial ideológico e estratégico dessas mulheres.
Desde quando me filiei, tive uma história responsável com o partido. Lutei pelos princípios do partido e pelo abandono de práticas coloniais. Sinto nos meus ombros a leveza de quem alcançou vitórias e derrotas apenas como resultado do seu trabalho e de articulações transparentes. Discordei da direção partidária localmente e nacionalmente diversas vezes quando se fez necessário para defender os ideais coletivos.
Há cada ano que passava, o PSB se mostrava mais resistente a mudanças e se distanciava da esquerda brasileira. As grandes figuras de referência se desfiliavam e as que ficaram desistiram da disputa interna. Algumas decisões políticas (ou ausência delas) levaram o PSB a um caminho de fisiologismo, conservadorismo e esvaziamento do debate político. Apoio ao PSDB no segundo turno presidencial de 2014, a bancada de deputados federais votando a favor da redução da maioridade penal, os diversos deputados e senadores expostos no escândalo da Lavajato, o “apoio” ao Presidente Michel Temer quando não impediu que um deputado assumisse o cargo de ministro, a bancada apoiando a reforma da previdência e reforma trabalhista é a verdadeira cara do PSB. Se apegar a poucos resilientes que cumprem a missão do partido é vendar nossos olhos para realidade.
No Distrito Federal não foi diferente, um partido com mais de 6 mil militantes passou a ter 2 mil filiados como reflexo da falta de gestão interna e as decisões políticas equivocadas. Uma coligação em 2014 que não conseguiu pensar para além de eleger um governador, nos manteve sem bancada nas câmaras federal e distrital. Decisões no governo que atingiram diretamente a vida da população como aumento da passagem, aumento do restaurante comunitário, redução significativa das estruturas governamentais de direitos humanos tornou o governo obsoleto e discrepante do que sempre lutei.
As divergências não se mantiveram apenas nas decisões externas, internamente o PSB possui uma estrutura antiga e patriarcal tanto no âmbito distrital como nacional. Temos um estatuto fraco que beneficia o abuso de poder e ninguém parece ter interesse em reformular. Um estatuto que no lugar de garantir a democracia é utilizado para favorecer os que estão na estrutura. Toda vez que se aproxima uma disputa, que mostra insatisfação das bases, algum coronel aparece para centralizar.
Uma juventude que em muitos locais se baseia em construir comissões provisórias onde não existe juventude organizada, além de alianças e negociações baseadas na troca de passagens de avião, cargos, contratos financeiros com o partido e não em ideias políticas. Pequenos barões e pequenos "coronéis modernos" se adaptando a práticas políticas antigas para manter seus pequenos núcleos de poder.
O PSB caminhou no sentido contrário da sociedade se tornando cada vez mais conservador, antidemocrático e sem representatividade de gênero e raça. Quando eram propostas reformas estruturais para reformular as relações de poder o recuo da direção era agressivo. Fica a indagação de porquê não 50% de mulheres nos cargos partidários, divulgação dos gastos partidários, fim das comissões provisórias, reforma estatutária em congresso aberto aos militantes, fim da reeleição nos segmentos partidários e democratização dos recursos.
Durante esses seis anos, igual tantos outros militantes, lutei com a esperança de reformular o PSB. Agradeço a todos o aprendizado que tive nos últimos anos. O PSB foi uma casa que me ensinou a política na sua face mais dura, porém necessária para meu amadurecimento. Valorizo a todos os resilientes que ainda tentam trazer o PSB para o século 21.  Agora vou me despedindo. Sigo buscando meu caminho em terreno que ainda exista esperança e que o comodismo não domine.
Thaynara Melo Rodrigues
 Secretaria Geral da JSB Nacional
 Membro do Diretório do PSB DF
Subscrevem esta carta e se desfilam do PSB DF:
Ana Lyz Machado Parreira Lúcio
Ana Flávia de Souza Silva
Beatriz Rezende de Souza Morais
Camilla Roberta da Silva Pereira
Débora Jesus de Carvalho
Gyan dos Santos Borges
Larissa Alves
Luzinete Maria Alves
Lucas Soares Fernandes
Maria Luisa Pereira de Morais
Maria Fernanda Neves
Marcella Viana
Nayara Jesus Damascena
Pamella Cristina Moura da Silva
Raiane Ferreira da Silva
Rodrigo de Araújo da Silva
Sara Oliveira da Silva
Stefany Nunes de Souza
Thayany Anjos
Tatiane Almeida Vidal Rodrigues
Raíza Rocha da Silva
Hara Rezendes
Vivian de Cerqueira Barboza
Karina Matos
Yasmin Melo Rodrigues
Informações
E-mail: thaynaramelodf@gmail.com
Telefone: Patrícia Freire (98151-8881)
Thaynara Melo (98383-9009)

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