Ativistas e médicos defendem ampliação da PrEP e das novas tecnologias de prevenção no SUS

Muitas reflexões sobre os próximos passos na luta contra a aids foram colocadas durante o 3º Seminário de Vacinas e Novas Tecnologias de Prevenção do HIV/Aids, que aconteceu nesta terça-feira (13), em São Paulo. Organizado pelo GIV (Grupo de Incentivo à Vida), o evento reúne, até quarta-feira (14), ativistas e especialistas de diferentes partes do Brasil para debates sobre os desafios e os avanços das novas tecnologias de prevenção no SUS. Uma delas é a PrEP (profilaxia pré-exposição ao HIV).

Disponível nos serviços de saúde desde janeiro passado, a PrEP é uma forma de prevenção com o uso de medicamentos contra o HIV em pessoas que não têm o vírus.  A profilaxia faz parte de um novo modelo de cuidado chamado prevenção combinada, que oferece diferentes opções para evitar novos casos de HIV e outras infecções. A prevenção combinada inclui, por exemplo, preservativos, testagem e vacinas.

“Já temos quase 6 mil pessoas em uso de PrEP no Brasil. Hoje, o nosso desafio é fazer com que ela chegue a quem mais pode se beneficiar e esteja em maior risco de contrair HIV: pessoas de baixa renda e não brancos, trans, jovens gays e profissionais do sexo”, defendeu  Clarissa Barros, do Departamento de IST, Aids e Hepatite Virais, do Ministério da Saúde

De acordo com Clarissa, a PrEP é uma abordagem preventiva altamente eficaz quando implementada juntamente com altos níveis de testagem e tratamento do HIV. “É uma oportunidade para resgatar todos os métodos de prevenção combinada”, afirmou. “Se PrEP fosse somente um medicamento, poderia ser uma solução para o HIV, mas não para as ISTs. A profilaxia pré-exposição é um estilo de vida”, completou.

Da Faculdade de Medicina da USP, o infectologista Esper Kallás defendeu a expansão e continuidade da PrEP no Brasil. Segundo o especialista, o uso de medicamentos como forma de prevenção não está necessariamente associado ao abandono da camisinha. “Todos os estudos apontaram estabilidade ou até diminuição dos casos de doenças sexualmente transmissíveis após a introdução da PrEP. Quem usa a profilaxia está em acompanhamento médico, ou seja, você traz esse indivíduo para o serviço de saúde e ele faz o diagnóstico de outras ISTs, tratamento e evita a transmissão.”

Kallás disse ainda que “toda medida que interfere no ato sexual é colocada em segundo plano. É por isso que nem abstinência nem camisinha funcionaram como principal medida de proteção. Pode funcionar no individual, mas não no coletivo.”

O pesquisador Alexandre Grangeiro concordou com Kallás. “A PrEP não é uma ferramenta que a gente pode jogar fora. Se mostra altamente eficaz. Mas não podemos nos esquecer que não adianta dispor de inúmeros métodos preventivos se não temos uma política pública que dialoga com a sua época. Estamos executando o que foi construído nestes 30 anos de epidemia e que não vai responder pelos próximos 10 anos.”

Na opinião de Alexandre, “há uma mudança social na percepção do HIV e menor disposição das pessoas para abrir mão da sua liberdade sexual em nome da prevenção. “Hoje, a mobilização social para induzir pessoas a se protegerem do HIV é menor. Muitos se sentem seguros para lidar com as consequências da epidemia.”

Para Grangeiro, é preciso atualizar a política de HIV e abandonar as convicções construídas há 30 anos. “O momento político pede a defesa do SUS, principalmente da equidade e universalidade. Temos que dialogar mais com o prazer e a liberdade sexual, incorporar a prevenção por internet e redes sociais e organizar os serviços e o acesso às tecnologias pressupondo maior autonomia do individuo.”

PEP

A infectologista Denise Lotufo, do CRT (Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids), também participou do debate e falou sobre a importância que teve a ampliação da PEP (profilaxia pós exposição) na política de aids.

Diferente da PrEP, a PEP são medicamentos antirretrovirais que são tomados depois que a pessoa se expôs ao HIV e quer tentar evitar a infecção. É uma estratégia de emergência. Ela impede que o vírus se multiplique e se instale no organismo e o sistema de defesa consegue dar conta de eliminá-lo.

“A ampliação do acesso à PEP e a simplificação do protocolo clínico foi uma grande oportunidade de fazer com que mais pessoas fizessem o teste de HIV e outras ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) pela primeira vez na vida. Em 2018, só em São Paulo, foram dispensadas 19 mil PEPs. O nosso desafio é fazer com que mais pessoas conheçam a PEP, inclusive as populações mais vulneráveis ao HIV e melhorar a adesão à profilaxia.”

Vacina
Imunizar as pessoas contra o HIV é uma ambição mundial há pelo menos 35 anos. Segundo o professor Jorge Beloqui, do GIV, há dois estudos de vacinas em curso com resultados promissores, mas a conclusão dever sair só em 2021. “A obtenção de uma vacina preventiva para o HIV é fundamental para controlar a epidemia de HIV”, afirmou.

Beloqui acredita que “o desenvolvimento de uma vacina preventiva segura e eficaz contra o HIV será essencial para alcançar um fim duradouro para a epidemia.”

Nesta quarta-feira (14), os debates serão sobre tratamento como prevenção; sífilis e outras ISTs; tuberculose e HIV e acesso à medicamentos e propriedade intelectual.

Talita Martins talita@agenciaiads.com.br




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