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| Dia Nacional de Conscientização sobre a Esquizofrenia busca combater estigma acerca do transtorno. Foto:Freepik |
_Psiquiatra explica efeitos da condição apontada pela OMS como a terceira maior causa de perda de qualidade de vida entre jovens e adultos no planeta_
No Brasil, estima-se que cerca de 547 mil adultos brasileiros vivem com esquizofrenia, o que representa 0,34% da população adulta nacional, de acordo com um estudo desenvolvido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal do Paraná (UFPR). A doença é um transtorno mental crônico e, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a condição figura atualmente como a terceira causa mais recorrente de perda de qualidade de vida global entre jovens e adultos na faixa etária dos 15 aos 44 anos.
Com o propósito de debater essa realidade e garantir a inclusão desse grupo de pacientes, o governo federal sancionou a Lei 14.860 de 2024, que oficializa o dia 24 de maio como o Dia Nacional de Conscientização sobre a Esquizofrenia. O projeto visa consolidar o combate a estereótipos que marginalizam os pacientes e reforçar a necessidade crônica do acesso ao tratamento integral.
Descrita pela psiquiatria como uma profunda desestruturação psíquica, a esquizofrenia abrange uma gama de sintomas clínicos que afetam a integralidade do indivíduo, interferindo severamente no seu modo de pensar, sentir e agir.
De acordo com o psiquiatra Fernando César Oliveira Costa, da Clínica Vittá, a doença provoca alterações na percepção da realidade, fazendo com que o paciente vivencie sensações que, embora não compartilhadas por terceiros, parecem-lhe absolutamente reais. Ele destaca que os sintomas mais comuns da doença, responsáveis por sua própria definição diagnóstica, dividem-se fundamentalmente em delírios e alucinações.
Delírios e alucinações
O especialista explica que os delírios se caracterizam por convicções internas inabaláveis, desprovidas de qualquer sustentação na realidade factual. O tipo mais frequente observado no cotidiano clínico é o delírio de perseguição, momento no qual o indivíduo passa a crer que há pessoas articulando planos para sabotá-lo, envenená-lo ou até mesmo atentar contra a sua própria vida.
Por sua vez, as alucinações referem-se à distorção direta dos canais perceptivos. Na esquizofrenia, elas ocorrem comumente pela via auditiva, manifestadas na audição de vozes externas ao próprio pensamento da pessoa. O paciente distingue esses sons como externos e alheios, acreditando tratar-se de terceiros falando diretamente com ele.
O médico ressalta que a presença isolada desses sintomas não carimba imediatamente o diagnóstico de esquizofrenia. Episódios delirantes e alucinatórios podem decorrer de outros agravos de saúde ou surgir devido ao abuso de substâncias psicoativas, por exemplo. De qualquer modo, Fernando César sublinha que toda ocorrência com essas características exige investigação psiquiátrica, pois reflete um sinal de gravidade neuropsíquica.
Impacto clínico da cronicidade
A gravidade da esquizofrenia está atrelada à sua tendência à cronificação na falta de bloqueio médico precoce. O psiquiatra alerta que, quando a patologia avança e se estabelece cronicamente, o indivíduo passa a manifestar novos sintomas marcados por pobreza cognitiva acentuada e pelo embotamento afetivo, que consiste na diminuição ou perda da capacidade de reação e expressão emocional, gerando um distanciamento do ambiente circundante.
Nessa fase crônica avançada, o quadro clínico costuma apresentar um caráter irreversível, consolidando uma incapacidade adaptativa e funcional muito severa para o paciente. Mesmo antes de uma eventual cronificação, as chamadas fases agudas da doença já trazem sérios problemas ao cotidiano, pois o paciente pode desenvolver quadros intensos de agitação psicomotora, ansiedade e medo agudo.
O especialista alerta que, devido a este severo comprometimento comportamental na fase de crise, a internação médica em ambiente hospitalar pode fazer-se necessária em algumas ocasiões, visando restabelecer o equilíbrio e resguardar a integridade física do próprio paciente.
Tratamento e desafios
Apesar de classificada como uma doença sem cura, o tratamento eficaz da esquizofrenia abre portas para que o indivíduo usufrua de uma vida produtiva e estável. Durante as manifestações agudas da enfermidade, a abordagem medicamentosa com fármacos antipsicóticos centraliza as ações e é prioridade. Quanto mais precoce for o início da medicação, menores serão os prejuízos e maiores serão as taxas de resposta e controle do surto.
Passada a crise imediata, inicia-se o tratamento complementar e psicossocial. É nessa fase de estabilização que entram a psicoterapia, a terapia ocupacional e o acompanhamento frequente em centros de apoio, essenciais para que o paciente recupere sua autonomia. O apoio da família também é indispensável, já que os parentes costumam absorver grande parte do desgaste emocional e das tensões que surgem na rotina de cuidados de uma doença crônica.
Além dos desafios da própria saúde, os pacientes enfrentam o peso do preconceito social. O psiquiatra da Clínica Vittá destaca que o mito mais comum na sociedade é associar automaticamente a esquizofrenia à agressividade. Esse julgamento é prejudicial, pois acaba isolando ainda mais o indivíduo e dificulta que ele ou sua família busquem ajuda médica por medo do estigma.
O médico esclarece que reações agressivas só acontecem se o paciente estiver sofrendo um delírio de perseguição muito intenso, agindo por medo para se defender do que imagina ser real. A grande maioria das pessoas com o transtorno não é violenta no dia a dia. Por isso, campanhas de conscientização são tão urgentes quanto o acesso aos remédios, pois devem ajudar a construir uma sociedade que acolha a saúde mental com empatia e respeito.
Serviço:
Dia Nacional de Conscientização sobre a Esquizofrenia
Quando: 24 de maio
Pauta: Mais de meio milhão de pessoas sofrem com esquizofrenia no Brasil, estigma ainda é forte
Fonte especialista: Fernando César, psiquiatra da Clínica Vittá
Palavra Comunicação
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